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Katty Xiomara
Aurora

Curiosamente a coleção que apresentei em finais de 2019 chamava-se After Now - Depois do agora… sem o saber, fez todo o sentido, e transformou-se na minha porta de entrada num ano que surge para o mundo como um ponto de viragem. 
Uma das minhas grandes lições de vida foi o aprender a dar maior importância aos momentos simples e muitos estão cuidadosamente guardados nos arquivos da minha memória. Esses momentos vão assomando a superfície, acordados por um odor, um sabor ou uma música.

Mas agora que a expressão "novo normal” entrou no nosso léxico, as coisas simples parecem ter ganhado brilho, deixaram repentinamente de ser simples para serem especiais e ganhamos um novo sentido de alerta para ver o que não víamos.

Esta coleção sugere um renascer, depois do agora nasce a aurora e um novo dia recomeça. Tudo germina na espiritualidade, na ironia, no desespero e na esperança. A temática apareceu sozinha e intuitiva, depois de uma leitura bastante objetiva sobre a evolução da humanidade e a sua ordem imaginada de deuses e poder, do historiador Yuval Harari. De seguida mergulhei no Tyll de Daniel Kehlmann, que logo nas suas primeiras páginas descarrega uma listagem interminável de deuses conhecidos e por conhecer, a quem todos rezam desmedidamente, apegando-se a uma fé que talvez nem exista, mas que no desespero, é o único que lhes fica… 

….Rezávamos ao Todo-Poderoso e à bondosa Virgem, rezávamos à Senhora das Florestas e aos pequenos seres da meia-noite, a São Gervino, a São Pedro, a João Evangelista e, à cautela, rezávamos também à Velha Mela que, nas noites de tempestade, quando os demónios têm autorização para vaguear em liberdade, percorre os céus seguida pelo seu séquito. Rezávamos ao chifrudo de outros tempos e ao bispo São Martinho, que partilhou a sua capa com o mendigo que morria de frio, de modo que acabaram por morrer de frio os dois, caindo ambos nas graças de Deus, pois para que serve meia capa no inverno? E, como é natural, rezávamos a São Maurício, que preferiu morrer com toda uma legião a trair a sua fé num Deus único e justo. 

E assim nasce a ideia de congregar tudo o que possa representar um poder divino, uma porta para a salvação e uma janela para entender o futuro. Desde os mitos às histórias, passando pelo esoterismo e as crenças ancestrais: a aurora, a profecia dos dois sois, os santos e os anjos, os astros, a cartomancia e a quiromancia, as fases da lua, os cinco elementos - fogo que consome as impurezas e faz recuar a escuridão, a terra que dá vida e oferece estabilidade, o ar que envolve a inteligência e a criatividade, a água que nos toca por inteiro na emoção e no inconsciente e o espírito que é a ponte entre o físico e o espiritual. 

Toda esta simbologia é interpretada em esboços rabiscados a caneta, como num bloco de notas, uma espécie de peditório aleatório de esperança.  A temática é subjetiva e espiritual e faz flutuar as cores dos elementos em peças que incorporam leveza, mas que antagonicamente são estruturadas, objetivas e práticas, projetadas como um set de indispensáveis arrojados. 

Para encontrar a esperança é necessário ir além do desespero. Quando chegamos ao fim da noite, encontramos a aurora. Georges Bernanos

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