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Katty Xiomara
MARIA MIMOSA
UMA HOMENAGEM ÀS MULHERES

"Olhar para o Futuro” é uma necessidade preeminente que é invocada com frequência no sentido estético que a moda representa, mas para olhar verdadeiramente para o futuro, não será essencial decifrar as pistas que o passado nos ofereceu?  

Por mais progressistas que os nossos sentimentos possam ser, temos de admitir que, o hoje seria um vazio sem o ontem e nesta ordem de ideias, o amanhã seria uma linha contínua no espaço.

Recentemente foi-me colocado o desafio de fazer uma capsule collection para a Hello Kitty, ela que como eu, nasceu no ano de 1974 o que faz com que juntas celebremos em 2019, os nossos 45 anos. Percebi que partilhamos o ano e a forma como os nossos nomes se escrevem, mas encontrei também outras semelhanças entre o universo da Kitty e o meu. A Kitty nasceu pela mão da Sanrio no Japão, mas com uma história de fundo onde é retratada como uma menina inglesa. Eu nasci no seio de uma família portuguesa, mas no clima temperado da América do Sul. Isto fez-me recordar e avivar lembranças da minha infância. Lembro-me de brincar mais fora de casa do que dentro, mesmo num contexto urbano estava sempre rodeada de muita natureza, talvez seja o resultado natural de pertencer a uma geração analógica, mas também porque vivia num clima apetecível. Recordo particularmente uma curiosa planta que quando tocada fechava as suas folhas, para mim era a Bela Adormecida, hoje sei que a denominação mais comum é - Mimosa Púdica. Associada a esta planta existia uma lenda de origem Filipina, a história de uma menina extremamente tímida chamada Maria, a lenda fala de um trágica invasão da aldeia, obrigando os pais de Maria a escondê-la na floresta, passado o tumulto os pais procuram pela menina, mas no seu lugar só encontram uma planta de pequenas folhas e lindas flores cor de rosa que ao ser tocada fechava todas as suas folhas num movimento rápido, assumiram assim que uma planta tão tímida só poderia ser a sua Maria. 
Eu deixava a minha roupa falar por mim, arrojando no vestuário deixando que ele expressasse o que eu não conseguia com palavras e iniciativa. Tinha o meu lado tímido e o meu lado arrojado sem palavras, por isso esta planta e esta história dizem-me muito. 

Revendo a minha adolescência e pensando na minha realidade, a de ser mulher, percebo que nessa mesma altura a realidade da mulher em Portugal era diferente. Eu, mesmo que dentro de uma cultura de natureza machista, já beneficiava das mudanças reivindicativas de igualdade, conseguidas pelos movimentos feministas de libertação, que foram germinando pelo mundo fora, fundamentalmente entre os anos 60 e 70. 
As atitudes que nos acompanham no crescimento ficam instaladas no nosso subconsciente e vão formando-nos como pessoas. Hoje em Portugal e no mundo, a mulher é vista com maior respeito, mais do que há 45 anos atrás, mas ainda existem muitas atitudes por reeducar para conseguir uma verdadeira igualdade de oportunidades.

Decidi, que poderia de certa forma homenagear estas mulheres que tanto fizeram por mim no passado. Esta é uma coleção de reflexão, de saudade, de paixão e de agradecimento. Não tenho a capacidade que estas mulheres tiveram de erguer a voz, mas gostaria de deixar o meu testemunho traduzido numa fórmula de moda.

Por outro lado, ao olhar para o passado desta forma mais pessoal, percebi que muitas das coisas que me faziam vibrar na moda foram desaparecendo - Já não se "namoram” as peças meses a fio antes de as decidir comprar, já não duram 20 anos intactas, já não passam de irmã para irmã. Hoje consumimos muito acima das nossas necessidades. 

A moda tem de mudar a sua forma de produzir, de seduzir, de vender e de comprar. Deixamos de nos importar com a durabilidade das nossas peças, queremos peças para hoje, não para amanhã, queremos 10 em vez de uma, queremos as últimas novidades no menor espaço de tempo possível. Defendo, que, no nosso meio aplicar o termo sustentabilidade é algo ambicioso e em certa medida utópico. Isto porque para além de sermos uma das indústrias mais poluentes, somos também extremamente dependentes. É difícil seguir o rasto da produção desde o seu mais básico elemento, a fibra, o fio, a tecelagem, a tinturaria, o corte, a confeção, a embalagem, a distribuição… Mas consigo perceber que em pequenas coisas podemos fazer alguma diferença e penso que o mais importante é reeducar o consumidor, para que deixe de ser consumidor e passe a ser um cliente. Nasce assim a nossa "Maria Reverberada” – uma capa de construção simples com aproveitamento de 100% do tecido, que nos permite uma utilização múltipla, com 3 posições diferentes. 

Em suma, esta coleção é um grande "Pot-purri” de lembranças – por um lado temos a Kitty, por outro temos a Mimosa Púdica a Maria e a força das mulheres, e por outro uma grande urgência de olhar para o futuro reconhecendo o que o passado nos ensinou. É uma coleção de formas simples e femininas com cores fortes e explosivas e uma grande mistura de materiais, brilhos e texturas, que revelam esta profusão de lembranças e ideias distintas.

Este ano queremos apresentar a nova coleção de inverno 2019/2020 numa fórmula especial que vai para além da moda. Impulsionada pelo convite da Sanrio para criar uma mini coleção comemorativa dos 45 anos da Hello Kitty, que por sinal também serão os meus, despertei para toda uma lista de recordações. Entre elas a mais óbvia, o facto de que sou mulher e de que hoje consigo; ser, estar e fazer, com alguma liberdade o que muitas reprimiram durante décadas. Esta coleção estabelece uma comparação com a Kitty, fala das minhas lembranças e preocupações e agradece às mulheres com coragem, que tornaram este crescimento possível.

Não tenho a capacidade de erguer a voz como a Gloria Steinem ou escrever como a Simone Beauvoir, nem sequer tenho a força de tantas outras mulheres anónimas, que nos representaram nos movimentos feministas dos anos 60 e 70, mas tenho capacidade para as homenagear. Elas fizeram muito, contudo sei que ainda há muito por fazer, por isso gostaria de convidar diversas mulheres das mais distintas áreas e gerações a deixarem um testemunho. Pode ser uma lembrança e um olhar para o futuro. Falar do que está diferente e do que pode ser diferente. Partilhar experiências, pequenas coisas, mesmo que possam parecer óbvias, porque aos olhos de uma nova geração, elas podem parecer muitas vezes incríveis. Tenho uma filha de 15 anos que nasceu e cresceu numa realidade completamente diferente e no entanto sente um apelo feminista e de igualdade generalizada muitíssimo forte. Isto intriga-me, diz-se que as lutas não podem ser esquecidas, tem de existir uma reciclagem, a certa altura torna-se necessário relembrar para reeducar, para não deixar esmorecer o objetivo.