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Bloom pela primeira vez com calendário e espaço próprios
Bloom pela primeira vez com calendário e espaço próprios

Porto, último piso do Palácio dos CTT. Público, muito público, a ocupar os metros quadrados tornando menos frio um espaço despido de elementos decorativos e apenas animado pelos cartazes de uma jornada que reúne nomes de jovens criadores de moda e projetos musicais. O cimento é aqui o cartão-de-visita e o padrinho de uma estreia que também se quer sólida para o projeto. Nos dias 13 e 14 de outubro foi este o cenário dos desfiles Bloom.

A autonomização dos desfiles de jovens criadores foi uma das novidades do projeto Portugal Fashion para esta edição. O potencial promocional dos jovens designers foi a força motriz de uma aposta vencedora, materializada em 12 desfiles onde os protagonistas foram os delfins da moda nacional. Para o presidente da ANJE – Associação Nacional de Jovens Empresários e da direção do Portugal Fashion, João Rafael Koehler, com esta emancipação "pretendeu-se dar ao projeto Bloom uma maior relevância no programa de desfiles do certame e assim aumentar a exposição pública das coleções dos jovens criadores”. "Esperamos que este novo modelo faça com que os desfiles de novos talentos da moda suscitem maior interesse mediático e tenham maior capacidade promocional, nomeadamente junto de agentes de compras. De resto, os jovens designers vão seguramente usufruir de melhores condições logísticas e de maior liberdade conceptual nos seus desfiles”, acredita o mesmo dirigente.

Logo no arranque do evento, no único desfile do Bloom realizado em Lisboa, foi apresentada a coleção da marca HIBU., desenvolvida agora em exclusivo pela jovem designer Marta Gonçalves. Em "Amboy”, "o bege do deserto, o azul claro e escuro do céu limpo e o negro das profundezas das crateras” são as cores que predominam, numa coleção introspetiva que aborda o tema do renascimento após um período de escuridão e solidão. A cor vermelha simboliza a "força adquirida ao longo do processo” (processo esse relacionado com o facto da marca voltar a ser representada por uma só pessoa), assim como os cintos que definem as silhuetas. Mas um denominador comum continua a vincar o ADN da HIBU.: as peças unissexo e até andrógenas.

Pela primeira vez uma location autónoma para o espaço Bloom

Mais a norte, o Palácio dos CTT foi ponto de encontro da experimentalidade artística, lugar onde todos os outros bloomers se apresentaram. Nos intervalos dos desfiles, mini-concertos de bandas pop-rock indie portuguesas, como os Blac Koyote, Krake, Landforms e Tanz Arbeiter, e DJ sets deram o tom necessário para a festa de cultura urbana que ali teve lugar. Nos bancos, o Bloomzine – outro novo apontamento desta edição – era folheado com interesse. A título de curiosidade, o nome deriva do trocadilho com o termo anglo-saxónico fanzine (aglutinação das palavras fanatic e magazine), fazendo desta forma todo o sentido já que tratou de um jornal exclusivamente dedicado aos jovens criadores, de estética irreverente e entrevistas nonsense.

No line-up outra novidade. As estreias a título individual de Beatriz Bettencourt, David Catalán, Inês Torcato e Olimpia Davide, como noticiou a RTP, constituíram uma parte da fórmula de sucesso do laboratório Bloom, dando cor à passerelle interior e exterior daquele sétimo piso com vista privilegiada para a sala de visitas do Porto, a Avenida dos Aliados.

Foram precisamente as coleções das jovens Beatriz Bettencourt e Olimpia Davide que arrancaram a jornada do Bloom na invicta. Num desfile conjunto, as propostas "Retrograde” de Beatriz Bettencourt revelam "um espírito descontraído com linhas desportivas”, que reinterpretam a silhueta dos anos 70, enfatizada pelo "alongamento do comprimento das peças, ausência de cavas e larguras oversized”. Por outro lado, o "B” do logotipo da marca é utilizado como detalhe das peças – em bolsos, cortes e recortes – evidenciando o propósito mais experimental da coleção. Olimpia Davide, inspirada numa viagem que realizou à Turquia, concebeu uma coleção onde o marinho e o cinza são as cores predominantes, em contraste com os slippers em tons néon. Silhuetas construídas com volume e de manifesta simetria apontam para uma "atitude descontraída e sporty ". A peça-chave é a t-shirt, e os materiais preponderantes os ribs, as carcelas de polo e o elástico, este último transformado em alça de soutien como forma de ajustar e subir as peças.

Eduardo Amorim foi o terceiro nome a pisar a passerelle no segundo dia de desfiles. A rebeldia do grunge dos anos 90 no mundo atual foi transportada para uma "estética agressiva, confortável e mundana”. É assim "Seattle Mess”, retratada por "um desmazelo a nível de acabamentos, com imperfeições e desgaste propositado”, até mesmo careless. Maria Kobrock, que já na edição passada se demarcou pela aplicação da palete de cor rosa em toda a sua coleção, optou por adotar para a próxima época estival os tons verdes e azuis. Em "A Tenra Indiferença do Mundo”, a escrita de Albert Camus é a fonte de inspiração e a corrente do absurdismo e do expressionismo abstrato os conceitos explorados.

Inês Torcato e David Catalán foram os nomes que se seguiram no programa. Num desfile conjunto, a jovem portuense começou por propor coordenados de "linguagem clássica e desconstruída”, aplicada em peças como o blazer, o sobretudo e a camisa. Após a coleção "Sketch (Self-Portrait)”, seguiram-se imediatamente as sugestões de David Catálan. Absorvendo a mística do bar londrino The Gallery, o jovem espanhol que adotou Portugal como segunda casa convida a "Forget About It”, com peças divertidas, coloridas e padronizadas.

Sara Maia apelou a um conceito de Moda Universal, que não olha a grupos específicos nem concebe divisões. Com a noite a começar a cair, foi a vez do tirsense Pedro Neto pisar a passerelle. As suas propostas, habitualmente inspiradas em obras de arte, absorveram nesta edição a visão da obra de Arnold Böcklin, "Island of Death”. O conceito da coleção gira em torno de "uma estória de amor que tem como momento alto a entrega da alma do seu amado ao submundo”. Nesse sentido, os tecidos utilizados remetem a cilindros com acabamentos enrugados. Nos materiais, o lurex sobressai, e nas cores, uma palete obscura que se interliga com a natureza presente na obra.

A dupla UN T, de Tiago Silva e Joana Cardinal, apresentou uma coleção quente "baseada na formação de matérias e formas que envolvem um corpo, funcionando como uma extensão do mesmo”. O resultado? Vigorosas construções de formas, leves e incorpóreas. A encerrar os desfiles do dia 13 de outubro, uma outra marca, desta feita composta por um trio. Fala-se de K L A R, de Andreia Oliveira, Alexandre Marrafeiro e Tiago Carneiro, uma marca que procurou nas seus coordenados primaveris enaltecer "a riqueza estética que habita o quotidiano”. A coleção é assumidamente oversized, evocando memórias de uma criança que experimenta roupas de adulto. Plissados ajustados ao corpo por argolas e ferramentas banais e materiais como o jersey e o nylon são predominantes.

Os desfiles Bloom desta temporada prolongaram-se até à manhã do terceiro dia do Portugal Fashion SS17, desta feita com o calendário exclusivamente consignado às escolas de moda. Nesse âmbito, foram apresentados os trabalhos de alunos finalistas da ESAD – Escola Superior de Arte e Design de Matosinhos (Cláudia Duque, Lúcia Pinheiro, Denise Brosseron, Ana Eusébio, Mariana Campinho e Francisca Sottomayor), da EMP – Escola de Moda do Porto (Daniela Ribeiro, Filipa Sousa-Pinto, Gisela Soares, Inês Assunção, Leonor Dias, Nina Vale e Tânia Viegas) e do Modatex-  Centro de Formação Profissional da Indústria Têxtil, Vestuário, Confeção e Lanifícios (Sofia Martins, Filipa Cruz, Vânia Moreira, Filipe Augusto, Ana João Azevedo e Beatriz Arrojado).

35 jovens designers apoiados pelo Bloom

O projeto Bloom foi criado pelo Portugal Fashion em outubro de 2010, na 27ª edição, com o intuito de apoiar, divulgar e valorizar, nacional e internacionalmente, jovens criadores portugueses. Traduzido para português, Bloom significa, aliás, florescer, dar flor, resplandecer. Desde essa mesma edição, o projeto Bloom já possibilitou a apresentação de coleções numa passerelle alternativa do evento, a 35 jovens designers e a seis marcas de novos criadores: Alexandre Marrafeiro, Ana Segurado, Andreia Lexim, Carla Pontes, Carlos Couto, Catarina Santos, Celsus, Cláudia Garrido, Daniela Barros, Diana Matias, Eduardo Amorim, Elionai Campos, Estelita Mendonça, Gonçalo Páscoa, Hugo Costa, Inês Marques, Iúri, Joana Ferreira, João Melo Costa, João Rôla, Mafalda Fonseca, Margarida Gentil, Maria Martins, Maria Kobrock, O Simone, Pedro Jorge, Pedro Neto, Pedro Pinto, Pilar Pastor, Pritt Franco, Rita Gilman, Sara Maia, Stefano Ficetola, Susana Bettencourt, Teresa Abrunhosa e ainda as etiquetas Align With Kay, Atelier Ctrl, Autopsy (by Jordann Santos), HIBU., K L A R e UN T.

A todos estes nomes devem acrescentar-se agora os dos jovens designers Beatriz Bettencourt, David Catalán, Inês Torcato e Olimpia Davide (pseudónimo de Inês Marques), que se estrearam na passerelle do Bloom nesta 39.ª edição do Portugal Fashion.

Alguns dos jovens criadores do Bloom participam em desfiles e showrooms internacionais com o apoio do Portugal Fashion ou do seu projeto comercial complementar, o Next Step, marcando assim presença em importantes certames de moda de Londres, Viena, Paris, Copenhaga ou Madrid, por exemplo.