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Maria Gambina: “A plataforma Bloom é um mestrado, o melhor!”
Maria Gambina: “A plataforma Bloom é um mestrado, o melhor!”
Maria Gambina está de volta às passerelles e ao Portugal Fashion, depois da sua carreira se ter centrado, sobretudo, na docência em Design de Moda. Diz, a propósito deste regresso, que a sua marca se encontra hoje "mais direcionada para o nós do que para o eu”. Ou seja, há uma maior preocupação com o sucesso comercial. Quanto às propostas a apresentar no 43.º Portugal Fashion, destaca como peça essencial um saco, que "pela construção, forma, versatilidade e grafismo define a coleção a todos os níveis”. Enquanto referência para muitos jovens criadores, Maria Gambina vê "a plataforma Bloom quase como a continuação de uma licenciatura – é um mestrado, o melhor!”. Desde logo porque tem "o acompanhamento do Paulo Cravo”, que é, para si, "o designer mais completo”. 

A marca Maria Gambina afirmou-se como uma das mais reconhecidas a nível nacional e internacional. Como caracteriza esse processo de consolidação da marca, numa altura em que o digital ainda não era uma realidade?
Penso que, em primeiro lugar, a marca tinha uma identidade muito forte e coerente. Quando surgiu, era dirigida a um público jovem e cool que não encontrava nada igual no mercado. [Era] uma marca streetwear com forte influência no desporto e na música.
O facto de ter obtido vários prémios a nível nacional – como, por exemplo, vencer por duas vezes consecutivas o concurso Sangue Novo promovido pela ModaLisboa, assim como, em parceria com José António Tenente, ter vencido o concurso de design e conceção das fardas para os funcionários e colaboradores da EXPO-98 – ajudou a dar mais credibilidade e projeção à marca. 
A nível internacional, a marca Maria Gambina foi destacada várias vezes numa das melhores revistas de moda dirigida ao streetwear, a "Sport&Street”. E, através do Portugal Fashion, realizei vários desfiles internacionais, nomeadamente em Paris, São Paulo e Madrid, e por duas vezes consecutivas fiz parte do calendário da Pasarela Gaudí, em Barcelona. Em todas estas apresentações, a imprensa internacional destacou a marca. Lembro-me da revista "Collezion” me dedicar três páginas, com o título "The Amália Rodrigues portuguese fashion”. 
Tudo isto ajudou no processo de consolidação da marca.

Em diversas entrevistas a criadores emergentes, como David Catalán e Marques’Almeida, o seu nome surgiu como uma das referências na área da moda. Sente que a sua carreira enquanto professora e designer tem impacto positivo no percurso de jovens designers?
Sei que o David, que veio de Espanha, optou por estudar na ESAD porque viu imagens da minha exposição "As saias da Maria” e pensou: "É com ela que quero aprender.” Quando o Paulo [Almeida] e a Marta [Marques] foram para o CITEX, eu já não era professora lá. Mas acredito que Maria Gambina era um dos nomes de referência da escola e que, sem dúvida, [Paulo e Marta] deveriam pertencer ao público jovem e cool que a marca representava. 
Ser uma professora que exerce, paralelamente, a sua profissão de designer de moda só pode ser positivo. Acredito que um professor de uma disciplina de Projeto só será completo se tiver experiência na área. Não imagino um professor de Projeto na área, por exemplo, de Arquitetura que nunca tenha construído obra… Ensinar não é só o que está nos livros, não é só o processo de pesquisa e investigação – é muito a partilha do conhecimento, a experiência, a capacidade de orientar e de arranjar soluções, porque já passámos por isso, porque o vivemos diariamente quando estamos a trabalhar na nossa marca ou a fazer um projeto de fardas ou a trabalhar para a indústria. 
Talvez porque sou apaixonada por ensinar exista uma enorme dedicação da minha parte, para além da sala de aula. Nunca os deixo sós quando têm que entregar um projeto, por exemplo, para um concurso. Há uma enorme cumplicidade no acompanhamento. 
A minha filha uma vez disse-me, em tom de brincadeira: "Para ti, em primeiro lugar estão as cadelas, depois os teus alunos, depois os avós e só depois eu”… [risos]. Não querendo ser pretensiosa – até porque um designer, enquanto aluno, não se constrói só por causa de um professor – acredito que o percurso do David Catalán, da Tânia Nicole, da Inês Torcato, da Olimpia Davide, da Beatriz Bettencourt, da Joana Braga, da Rita Sá, da Maria Meira e do Luís Sandão [todos eles passaram ou estão no Bloom] teria sido completamente diferente se não me tivessem tido como professora e estudado na ESAD.

Sente que a plataforma Bloom é um agente diferenciador na carreira de jovens criadores?
Sem dúvida. Para além de terem o acompanhamento do Paulo Cravo, que é o designer mais completo que conheço. Vejo a plataforma Bloom quase como a continuação de uma licenciatura – é um mestrado, o melhor!

Pela sua experiência enquanto designer e professora, quais são as características que pensa ser fundamentais num novo talento?
Primeiro, realmente terem talento e identidade. Depois, garra, dedicação, paixão e muito profissionalismo. 

Ainda numa perspetiva de ensino, que condições devem ser melhoradas no circuito da moda para facilitar a integração e afirmação dos jovens designers?
Ao longo da minha vida como professora, e nos últimos anos responsável pelo acompanhamento e orientação criativa dos concursos da licenciatura em Design de Moda da ESAD, sinto que, por vezes, ao selecionar os alunos pelo seu lado criativo, sentido de responsabilidade e profissionalismo lhes estou a dar uma "prenda” envenenada. Quando falamos de concursos só de Design – em que não têm que produzir os coordenados (concursos de fardas, por exemplo) mas apenas apresentar o dossier criativo do projeto e, caso vençam, acompanhar a produção dos protótipos e aprovar as peças finais realizadas em empresas –, acho uma oportunidade excelente, que só lhes tira tempo em horas extras de trabalho fora da sala de aula mas lhes dá a oportunidade de perceberem como tudo funciona. No entanto, a maior parte dos concursos obriga-os a um investimento enorme na produção dos coordenados (a tal "prenda” envenenada). E é aí que o circuito da moda deveria entrar, não só para os ajudar como para os integrar, ainda enquanto estudantes, na indústria. Falo, por exemplo, de terem acesso a materiais nacionais inovadores, diferenciadores, sustentáveis que só valorizam os seus projetos ou a empresas que lhes possam produzir as suas ideias a nível de acabamentos, lavagens, tingimentos… 
Na ESAD, por exemplo, temos uma parceria com a loja THE há já alguns anos e tem sido, sem dúvida, uma mais-valia. No 1º semestre, [os alunos] têm que realizar uma mini coleção dentro do seu universo criativo mas que se adapte ao conceito THE. Na semana aberta realiza-se um desfile, onde é apresentado um coordenado de cada aluno e a THE seleciona o projeto vencedor. Se nos primeiros anos só se selecionava um projeto, nos últimos anos já se selecionaram várias peças que depois foram vendidas nas lojas THE. E isso só tem acontecido porque algumas empresas já nos começaram a "abrir as portas”, o que tem feito toda a diferença no resultado final dos coordenados. 
A importância destas parcerias faz com que, ainda na escola, [os alunos] comecem a ter uma noção muito real de todo o processo. Para além do tempo de realização do projeto até à seleção do coordenado final, ainda têm que passar por várias fases, desde a ficha técnica preenchida até ao mínimo detalhe, o protótipo e todo o processo de produção (que muitas vezes não é nada fácil) e o cumprimento dos prazos. Não pode haver falhas nem desculpas. Tudo tem que estar impecavelmente bem feito, com ótimos materiais, etiquetado e com o preço de venda ao público. É real! 
Mais uma vez reforço a urgência de parcerias com a indústria têxtil nacional. Aliás, temos a melhor [indústria], e todos ganhariam com isso. Se, por um lado, ajudaria os jovens designers a integrarem-se mais cedo naquilo que será o seu futuro, por outro, estes trariam ideias e soluções que poderiam levar mais longe os produtos das empresas.
O investimento é enorme para um aluno ou jovem designer. E muitos acabam por ficar pelo caminho: não têm possibilidades, não têm ajuda. Já se perderam excelentes criativos, com garra, com identidade, com talento mas sem apoios… É preciso estar atento e não os deixar fugir.  

Após algum tempo afastada das passerelles, volta a apresentar a sua coleção nesta 43ª edição do Portugal Fashion. O que podemos esperar deste regresso? Sente que há um "antes” e um "depois” da marca Maria Gambina?
Sim, há um "antes” e um "depois”. [Hoje] há uma marca mais preocupada em vender. Há uma marca mais direcionada para o nós do que para o eu.  

Que peça destaca na sua coleção SS19, e porquê?
Um saco. Pela construção, forma, versatilidade e grafismo define a coleção a todos os níveis.

Quais as influências mais representativas no universo da marca Maria Gambina?
O meu universo: o que eu vivo, o que eu vejo, o que eu ouço, o que me rodeia e o que eu sinto.

Como define o Bloom numa palavra?
Futuro.

Como vê o futuro da moda nacional?
Esta é difícil [risos]. Em primeiro lugar, gostaria de afirmar que não existe em lado nenhum do mundo a oportunidade dos designers apresentarem a custo zero as suas coleções em plataformas como o Portugal Fashion, o Bloom ou a ModaLisboa. É uma sorte. 
No entanto, considero, até porque já o experienciei, que se não existir um apoio na orientação da marca do designer a nível comercial, se não existir um apoio na forma da sua comunicação, se não se fizerem parcerias com a indústria, vai-se andar sempre em círculo. Vão uns, vêm outros, tornam a ir uns e a