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Paulo Almeida: "O Bloom é uma tela em branco onde tudo pode acontecer"
Paulo Almeida: "O Bloom é uma tela em branco onde tudo pode acontecer"
Vê na maquilhagem a sua forma de arte preferida e é perito em criar o visual ideal para um look perfeito. Paulo Almeida é um dos mais conceituados make-up artists da MAC Cosmetics e Diretor de Maquilhagem do Portugal Fashion, onde desempenha um papel fundamental para que todas as criações dos designers sejam nada menos que icónicas no momento de pisar a passerelle. Estivemos à conversa com Paulo Almeida sobre como tudo começou, o que é preciso ter para correr as principais fashion weeks do mundo e, claro, a visão integradora da maquilhagem e da moda. 

Começamos com uma pergunta difícil: o significa para ti a maquilhagem? O que existe nela que te apaixona?
Para mim, a maquilhagem é um acessório. Um acessório personalizado e único que complementa um look que quem a usa quer conseguir. Creio que a maquilhagem deve conseguir contar uma história, criar ou transmitir uma emoção, uma ideia ou sentimento e é isso que me apaixona nela. Da mesma maneira que a roupa consegue criar e transmitir diferentes imagens, a maquilhagem é para mim a projecção de um estado de alma. Quando se começa a ver desta perspectiva, ela deixa de ser uma série de passos que se tem de fazer para se tornar na construção de uma imagem que se quer transmitir através de cores, texturas, traços e formas. Por exemplo, um lápis negro nos olhos pode representar sensualidade, um acto de rebelião, algo frio e mecânico, mistério, inocência... tudo isto dependendo de como e onde se aplica. É este manipular dos materiais, o conseguir expressar emoções através de combinação de produtos e técnicas que me apaixona na maquilhagem. E é isso que distingue um make up artist de um (como eu lhes chamo) make up applicator.

És um dos make-up artists portugueses mais aclamados e uma figura incontornável da MAC Cosmetics. Como nasceu a tua paixão pela área? Sempre soubeste que seria este o teu caminho?
Nunca pensei que seria maquilhador! Sempre gostei de moda e, enquanto estudava Direito na Universidade de Lisboa, trabalhava na Visual Lx, uma escola de manequins onde a maquilhadora Cristina Gomes dava cursos de maquilhagem. Esse foi o meu primeiro contacto com a profissão e ela convidou-me a participar nas aulas. Quando a MAC abriu em Portugal, em 1999, ela obrigou-me a ir a uma entrevista. Terminei o curso de Direito em Setembro e em Outubro comecei a trabalhar na MAC e o resto é historia. Nunca pisei a sala de um tribunal mas continuo presente nos bastidores das principais capitais de moda do mundo.

Tal como os nossos bloomers, também tu floresceste para o artista de referência que hoje és, além de seres um elemento fundamental nas mais importantes semanas de moda internacionais. Como recordas essa fase de crescimento e a que te souberam as conquistas?
Uma das principais coisas que a Cristina Gomes me ensinou foi a ser humilde e isso faz que, até hoje, eu siga aprendendo. Quando entrei na MAC maquilhava diariamente pessoas de todas as idades, todas as raças e todos os géneros, como é o lema da marca. Foi isso que me ensinou a resolver problemas e aperfeiçoar as minhas técnicas. Quando encontrava alguma dificuldade, praticava em mim até aprender e ficar contente com o resultado. Todos os días me maquilhava e experimentava coisas diferentes. O que me leva à segunda qualidade que sempre guardei que é a perseverança. Em vez de evitar o que me era difícil, era justamente a primeira coisa que fazia e, até hoje, nunca estou contente com o resultado do meu trabalho. Quando termino, tenho sempre que deixar passar 10, 15 minutos para que possa olhar para ele e dizer que está bom. Acho que é essa sensação de que posso fazer melhor que me puxou para a frente e que me faz sentir que ainda tenho muito que crescer. Em relação a conquistas, talvez por ser uma pessoa um pouco privada e tímida, sempre as vi mais como etapas que conquistas. A primeira vez que a Antonia Rosa me convidou para fazer uma Moda Lisboa e me felicitou pelo meu trabalho, foi uma etapa muito importante para mim e que me ensinou muito. Celebrei com os meus amigos mas segui em frente. Em 2002, quando fiz a minha primeira semana de moda internacional em Milão, celebrei com os meus amigos mas segui em frente. Nos últimos 16 anos trabalhei com pessoas como Alexander McQueen, Jean Paul Gaultier, Vivienne Westwood, Naomi Campbell, Isabella Blow, Val Garland, Kabuki, Alex Box ou Tom Pecheux mas as minhas maiores conquistas continuam a ser o "like” da Cristina Gomes numa foto de um trabalho meu no Instagram ou o abraço da Isabel Branco no final de mais uma edição do Portugal Fashion.

A maquilhagem e a moda andam sempre de mãos dadas ou existem independentemente uma da outra?
Creio que existem independentes uma da outra, embora se complementem totalmente. Acho que a maquilhagem é mais o resultado de uma cultura, de costumes enquanto que a moda é, intrinsecamente, o reflexo de uma realidade presente, em constante mudança. O conceito de moda implica automaticamente evolução e inovação enquanto que a maquilhagem pode seguir (ou não) tendências que acompanham a moda mas não necessita de ser reinventada cada estação.

Como make-up artist, consegues criar o melhor look de maquilhagem para um determinado coordenado ou coleção. Como caracterizas esse processo criativo? É fácil chegar ao visual perfeito?
Às vezes sim, às vezes não. Para mim, a situação ideal é quando existe uma colaboração entre mim e o criador. Como referi anteriormente, acho que a maquilhagem deve contar a história que o criador quer contar com a sua colecção e deve complementar as roupas e não ser o foco das atenções. Quando estou a criar um look para um desfile, a primeira coisa que pergunto é a história da colecção, quais são as referências e a inspiração do criador. Depois posso inspirar-me nas cores, nos cortes ou materiais da roupa, nos cabelos ou mesmo na música que vai ser utilizada no desfile e então explico a interpretação que eu dou a todas essas ideias e estímulos. Às vezes concordamos e acerto no look à primeira e outras vezes experimentamos várias versões até ficarmos contente com o resultado final. O pior que me podem fazer é mostrar uma foto de um desfile ou de uma maquilhagem e dizer "Quero isto”. Primeiro porque estou a copiar o trabalho de outro maquilhador e segundo porque a maquilhagem deixa de ser algo pessoal e com alma para ser um "copy/paste” sem muito interesse.

Atualmente, és Diretor de Maquilhagem no Portugal Fashion e desempenhas um papel essencial nos desfiles de alguns dos maiores nomes da moda portuguesa. Quais são os principais desafios de quem partilha, com os próprios designers, uma responsabilidade tão grande na estética de um desfile?
A primeira e maior responsabilidade é de garantir que a maquilhagem representa a visão do criador. No entanto, como especialista de maquilhagem, é minha função aconselhar no que possivelmente pode resultar melhor em passarelle ou com determinada luz, etc. Outra grande responsabilidade é garantir que cada criador tenha uma individualidade. Numa plataforma de apresentação como é o Portugal Fashion, em que os desfiles acontecem uns a seguir aos outros, no mesmo sítio, com as mesmas manequins, tenho que ter cuidado para que distintos criadores não tenham o mesmo look. Isso é outra das razões pelas quais odeio a maquilhagem "copy/paste”. Quando existe esta sinergia criativa, conseguimos construir looks únicos, interessantes e que acompanham as últimas tendências internacionais.

Na perspetiva de um maquilhador, qual dirias que é a melhor parte da experiência de trabalho nos bastidores? E a pior?
A melhor é, sem dúvida, o trabalho de equipa. Aprende-se imenso quando trabalhamos com pessoas diferentes. Ver técnicas diferentes das tuas, processos criativos, inspirações, até mesmo a forma como organizam os kits de maquilhagem! Isso é o melhor de tudo. O pior... escadas! Não existe nada pior que subir três lances de escadas com o kit de maquilhagem!

Lembras-te do primeiro desfile que fizeste? Que aprendizagem retiraste dessa primeira experiência?
Não sei qual foi o primeiro desfile que fiz, mas a primeira experiência a trabalhar em bastidores foi na Moda Lisboa com a Antónia Rosa. A primeira coisa que se aprende é o ritmo. Temos que trabalhar bastante rápido sem nunca prejudicar a qualidade do nosso trabalho. Depois, a destreza e a calma. Quando te chega uma manequim atrasada e o desfile tem que começar em 5 minutos, tens de manter a calma e saber exatamente o que fazer, no mínimo de tempo possível. A humildade. Entender que quando estas a trabalhar num desfile que não é teu, é a visão do chefe de maquilhagem que impera. Às vezes apanhas o conceito à primeira e outras vezes custa um pouco mais e tens de emendar ou começar de novo. E finalmente, conseguir ter uma loja de maquilhagem dentro do teu kit. Nunca sabes o que te vão pedir para fazer assim que o teu kit tem sempre que ter um bocadinho de tudo. Os bastidores da Moda Lisboa e do Portugal Fashion são uma lição de vida para qualquer profissional. Quem sobrevive a estas experiências, está preparado para qualquer passerelle internacional.

Na mesma ótica, que características consideras essenciais para trabalhar na indústria da moda e, especificamente, em contexto de desfile? O talento basta ou também é preciso coragem?
Não, só talento não basta. São precisas várias características para se ser bem-sucedido nos bastidores de um desfile de moda. Conheci vários maquilhadores excelentes que não conseguiam lidar com o stress de um desfile ou que eram tao perfeccionistas que demoravam horas em terminar uma maquilhagem. É preciso coragem porque estamos a submeter o nosso trabalho à avaliação de outras pessoas e às vezes os resultados podem ser muito cruéis. Já vi maquilhadores serem insultados (eu, por exemplo), já vi maquilhadores a serem obrigados a tirar toda a maquilhagem e começar de novo (eu, por exemplo) e já vi maquilhadores serem proibidos de maquilhar. É preciso ter uma pele dura para saber lidar com estas situações e não deixar que elas nos deitem abaixo. Todos temos dias melhores e piores, devemos aceitar os nossos erros, aprender com eles e seguir em frente. O talento é bom para começar a aprender, mas, ao nível com que eu trabalho, temos que, acima de tudo, ser profissionais. Temos que lidar com muitos egos e não é só fazer maquilhagens bonitas para por na página do Instagram. Também temos que nos por de joelhos e esconder feridas nos calcanhares e dedos dos pés. Quem não está preparado para estas coisas, é melhor ficar em casa.

Sendo uma presença quase constante no Portugal Fashion, tanto na passerelle principal como na plataforma Bloom, decerto acompanhaste o percurso de alguns dos nossos designers. Que balanço fazes da sua evolução?
Acho o balanço super positivo. É muito bonito ver o processo de maturação que os criadores passam na sua evolução. Quando os começamos a ver no Bloom, conseguimos entender a génese do que querem transmitir, mas muitas vezes a mensagem ainda está muito crua. Acho que é depois, quando começam a entender mais as vicissitudes de um mercado e de uma indústria, que essa mensagem vai madurando e ganhando forma, sem perder o que os tornou únicos desde o início. Um dos grandes exemplos é o caso do Hugo Costa, que o conheci ainda no Bloom e que agora apresenta em Paris. Isto não teria sido possível sem uma plataforma como o Bloom ou o Portugal Fashion, não só a nível de comunicação, mas também porque este tipo de exposição faz com que os criadores tenham que responder a outros níveis de exigência e a outros mercados, que os fazem crescer muitíssimo.

O que é para ti o Bloom?
Para mim, o Bloom é uma plataforma de lançamento de novos criadores. É como se fosse o Baile de Debutantes, onde um jovem criador tem a oportunidade de se apresentar à indústria. O Bloom facilita essa apresentação, mas depois é responsabilidade do criador desenvolver a sua marca e fazer com que ela seja relevante no panorama da moda nacional e/ou internacional. Às vezes consegue-se, outras vezes não, mas se não fosse o Bloom, os contactos e as apresentações, as primeiras portas seriam muito mais difíceis de abrir.
Acho que o Bloom ajuda muito para que a moda se renove. Devido à natureza do evento, vemos muitas ideias novas e em bruto, que se calhar podem parecer estranhas ao início, mas que faz com que a criatividade flua e que se descubram novas silhuetas, cortes, combinações, etc.

Se tivesses que fazer uma make-up inspirada no Bloom, como seria?
Eu vejo muito o Bloom como uma tela em branco, em que tudo pode acontecer e onde tudo tem espaço para evoluir. Também é um espaço de experimentação e diferença assim que a minha proposta seria pintar um modelo todo de branco, da cabeça aos pés. A ideia era fazer que apenas as roupas tivessem impacto e que se anulasse tudo o resto. À medida que o desfile ia decorrendo, os manequins iriam aparecendo com explosões de pigmentos em cores que complementassem a coleção, em várias partes do corpo.

Que bloomer achas que ainda vai dar que falar?
Eu tenho os meus olhos postos na Nycole. Acho que o que ela aporta à moda portuguesa é algo bastante contemporâneo e individual, mas ao mesmo tempo comercial e acho que está a apostar num segmento de mercado que tem ainda muitíssimo potencial. Faz falta diversidade na moda masculina e a Nycole está a trazer uma lufada de ar fresco.