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Fashion alert para a sustentabilidade da moda numa edição que reuniu 50 criadores e marcas
Fashion alert para a sustentabilidade da moda numa edição que reuniu 50 criadores e marcas
O fashion alert para uma moda e um planeta mais sustentáveis marca o 44º. Portugal Fashion outono/inverno 2019-20, que teve lugar entre 14 e 17 de março, na Alfândega do Porto. A mensagem de sustentabilidade atravessa uma edição que realizou 33 desfiles com propostas de quase 50 criadores e marcas nacionais, cobrindo desde a moda de autor às linhas mais comerciais, sem esquecer o espaço Bloom dedicado aos novos talentos. Estilistas consagrados e criadores emergentes, indústria de vestuário, calçado, acessórios e lifestyle, jovens designers e estudantes de moda compuseram um calendário de desfiles que, pela primeira vez, dedicou uma manhã ao kidswear. 

"Foi uma edição do Portugal Fashion com vários motivos de interesse, desde logo a apresentação, entre nós, de coleções que tiveram amplo sucesso em capitais da moda como Londres, Paris e Milão. As tendências para a próxima estação fria vão ser reveladas por alguns dos nossos maiores criadores e marcas, que não deixarão de demonstrar toda a elegância, savoir-faire e modernidade da moda portuguesa”, assegura a project leader do Portugal Fashion, Mónica Neto. A mesma responsável diz, a propósito, que esta edição "foi reveladora do bom momento que vive a moda portuguesa, sendo evidente o potencial de internacionalização de vários criadores e marcas, como de resto tem sido confirmado nas grandes passerelles mundiais”. 

 
Na passerelle do 44.º Portugal Fashion foram reveladas as propostas para a próxima estação fria de nomes consagrados da moda nacional, como Alexandra Moura, Alves/Gonçalves, Diogo Miranda, Luís Buchinho, Luís Onofre, Maria Gambina, Miguel Vieira, Katty Xiomara e Nuno Baltazar. A este lote somaram-se, ainda, Carlos Gil e Nycole, que participaram na ModaLisboa apoiados pelo Portugal Fashion. Ao abrigo do acordo de cooperação entre os dois eventos – que prevê, entre outras iniciativas conjuntas de promoção da moda portuguesa, o intercâmbio de criadores e marcas –, Carlos Gil e Nycole powered by Portugal Fashion protagonizaram dois dos grandes desfiles da ModaLisboa, a 9 e 10 de março, no Pavilhão Carlos Lopes.

Neste 44.º Portugal Fashion, também foi grande a expectativa em relação às novas coleções de criadores emergentes, como a dupla Marques’Almeida – que está a causar furor na alta-roda da moda mundial –, a marca Sophia Kah – cujos vestidos de alta-costura estão a conquistar celebridades internacionais –, o designer Hugo Costa – que tem conhecido forte aclamação no calendário de menswear da Semana da Moda de Paris – ou os sempre criativos e surpreendentes Carla Pontes, Daniela Pereira, David Catalán, Estelita Mendonça, Pé de Chumbo e Susana Bettencourt. 

Como é habitual e se inscreve no perfil do evento, o Portugal Fashion consagrou uma boa parte do seu programa de desfiles às linhas comerciais dos setores do vestuário e do calçado/acessórios, que estão entre os mais empregadores, competitivos e exportadores do país. Marcas de pronto-a-vestir como Concreto e Meam apresentaram as suas novas coleções. Por seu turno, o melhor do setor do calçado e acessórios português foi, mais uma vez, representado nesta edição pelas marcas Ambitious, Fly London, Gladz, J. Reinaldo, Lemon Jelly, Nobrand, Rufel e The Baron's Cage.

No programa foram contempladas apresentações que se afastam do conceito tradicional de desfile e se definem, sobretudo, como performances de moda, sendo caracterizadas por um elevado grau de espectacularização, de interação com o público e de envolvimento artístico. Para marcas e criadores, trata-se de ser mais criativo e diferenciador na revelação das suas coleções, com o intuito de reforçar a respetiva identidade estética. Para o público, este tipo de apresentações podem gerar formas diferentes de experienciar o fenómeno da moda. Júlio Torcato, Estelita Mendonça, Susana Bettencourt e Carla Pontes são os criadores que, nesta edição, subverteram o habitual formato dos desfiles de moda. 

As novidades do 44.º Portugal Fashion também passaram por uma nova organização espacial e pela utilização de um espaço da Alfândega nunca antes destinado ao evento. A ideia foi melhorar a fruição das coleções, facilitar a mobilidade no edifício, otimizar as condições de trabalho dos protagonistas, aumentar o conforto dos convidados e tornar mais aprazíveis os espaços sociais.
O já aqui referido fashion alert veio no seguimento da preocupação que a indústria da moda tem revelado relativamente à sustentabilidade das suas atividades e produtos, com resultados substantivos na redução do respetivo impacto ambiental. De resto, o próprio Portugal Fashion concretizou, ao nível da sua organização, iniciativas para melhorar a sua sustentabilidade, como a redução do uso do papel. "Ao longo da sua história, o Portugal Fashion associou-se a diferentes causas de responsabilidade social, sendo agora pertinente juntar-se ao apelo mundial para promover a sustentabilidade do planeta e aos esforços da fileira moda para diminuir a sua pegada ecológica”, explica Mónica Neto. 

33 desfiles com o melhor da moda portuguesa 

Com arranque previsto para as 15h00, o 1.º dia do 44.º Portugal Fashion foi quase em exclusivo dedicado aos desfiles de jovens designers do projeto Bloom. Mas nessa noite, a partir das 21h00, três nomes de peso definiram tendências na passerelle do Portugal Fashion: o veterano Júlio Torcato – que preparou uma performance com suporte de vídeo e áudio, em que alerta para os animais em risco de extinção por ação humana e tem como convidada especial Raquel Prates –, o ex-bloomer Hugo Costa – que em janeiro último participou pela participou pela 6.ª vez consecutiva na Paris Fashion Week Menswear – e Maria Gambina – que reincide no evento depois do regresso às passerelles na última edição.

Hugo Costa apresentou a coleção "Maybe we’ll be together again”, frase escrita, e inscrita, no que resta do Muro de Berlim e que serve para ilustrar as "liberdades limitadas, muros erigidos e atitudes extremadas” que inspiram as novas propostas do criador. As silhuetas desconstruídas a partir de clássicos dos anos 70 e 80, o denim e outros tecidos (alguns técnicos) de aspeto austero e as cores sombrias (preto, cinza e verde seco mas também bege, bordeaux e rosa) caracterizam a mais recente coleção de Hugo Costa e refletem um certo desencanto com o mundo atual. "Talvez um dia o mundo se torne num lugar mais democrático e de respeito”, pode ler-se no descritivo da coleção.

Após o feliz e promissor regresso de Maria Gambina às passerelles e ao Portugal Fashion, em outubro último, a criadora deu-nos agora a conhecer "Nancy”, uma coleção "com influências retro, num ambiente de estâncias de neve”. Para o próximo Outono-Inverno, Maria Gambina propõe fatos de esqui que se transformam em delicados vestidos rodados feitos em materiais técnicos com referências a peças intemporais; "machos tábua” que remetem para os acolchoados e colaretes que evidenciam pormenores básicos do vestuário; micro quadrados vichy, tricots e jogos gráficos de jacquard que conferem um look retro à coleção mas com uma atitude contemporânea; plissados e efeitos crackle que evocam o universo feminino. Nas cores, a criadora privilegia o bordeaux, o cru, o branco, o amarelo-torrado e o coral, com apontamentos laranja, verdes e azuis-claros.

O 2.º dia de Portugal Fashion arrancou às 15h00 com o desfile duplo de Inês Torcato e Sara Maia, jovens designers que se mantêm na passerelle principal do evento depois da experiência adquirida no espaço Bloom. Seguiu-se um outro ex-bloomer, o irreverente Estelita Mendonça, e mais tarde Sophia Kah, marca de alta-costura feminina da criadora portuguesa Ana Teixeira de Sousa. Esta foi já a segunda participação consecutiva da marca no Portugal Fashion, evento que também apoiou os dois desfiles de Sophia Kah na London Fashion Week, em setembro e fevereiro últimos.

A marca que já vestiu celebridades como Beyoncé, Keira Knightley, Nelly Furtado e Florence Welch revelou a coleção "Tiger Souls”, na qual é evidente o ADN Sophia Kah: vestuário elegante, com detalhes artesanais elaborados. Desta feita, Ana Teixeira de Sousa reinterpreta os tecidos clássicos, como a seda, o chiffon e o georgette de seda, muitas vezes sobrepostos com um entrelaçado francês. Silhuetas sóbrias e fluídas, decotes com cortes assimétricos, mangas compridas, trespasses e cores góticas (pretos e os azuis noite com apontamentos escarlate e fúcsia vibrantes) marcam uma coleção onde imperam os vestidos de noite com emblemas de tigre bordados. 

De regresso da Milano Moda Donna, onde se estreou a 24 de fevereiro com o apoio do Portugal Fashion, Katty Xiomara trouxe à Alfândega do Porto uma coleção, "Maria Mimosa”, impulsionada pelo convite da Sanrio para criar uma minicolecção comemorativa dos 45 anos da Hello Kitty. Dá-se a coincidência de ser também esta a idade da criadora, o que despoletou uma série de recordações transpostas para as novas criações de Katty Xiomara. Assim nasceu "uma coleção de formas simples e femininas, com cores fortes e explosivas e uma grande mistura de materiais, brilhos e texturas, que revelam esta profusão de lembranças”. Por outro lado, a criadora quis também refletir sobre a condição da mulher e alertar para a necessidade ambiental de aumentar a durabilidade do vestuário. Há, de resto, na coleção uma capa com 100% de reaproveitamento do tecido e que pode ser vestida em três posições diferentes.

Também a coleção que se seguiu, da marca Pé de Chumbo, revelou preocupações ambientais ao incluir casacos com fios reaproveitados e pelo de poliéster reciclado do plástico dos oceanos. Pela primeira vez, as propostas da criadora estendem-se aos sapatos, que são desenvolvidos pelo mesmo processo de construção das peças de vestuário. A sustentabilidade também está presente na coleção da TM TERESAMARTINS graças à utilização de tecidos naturais e ao recurso a técnicas de confeção tradicionais.

Ambos de regresso de Paris, onde apresentaram as suas últimas coleções com o apoio do Portugal Fashion, Diogo Miranda e Luís Buchinho proporcionaram dois dos principais momentos de moda desta edição. Inspirada na personagem de Catherine Deneuve no filme "Indochina”, a nova coleção de Diogo Miranda é pródiga em motivos náuticos, como riscas e correntes, usados de forma feminina e com um look clássico. Sobressaem os casacos náuticos em conjunto com calças de marinheiro e o tafetá para criar mangas exageradas e volumosas em contraste com saias plissadas. Ivory, cinza claro, bege, preto, azul-marinho e dourado são as cores escolhidas para a estação fria.  

Já Luís Buchinho inspirou-se no uniforme das mulheres pioneiras da aviação da década de 1940. O criador privilegiou o couro luxuoso misturado com pelo falso, flanela, malha, lã e feltro. Avultam os casacos com colarinhos gigantes, os sobretudos de aviador e os casacos curtos, boleros e híbridos com variações gráficas particulares (tanto de volume como de forma) e especificidades interessantes no abotoamento. Geométrica, estruturada e composta de zonas onde o mate e o brilho se conjugam com couro e pelo falso, a nova coleção de Luís Buchinho combina peças casuais com os clássicos e manipula materiais e cores criando silhuetas gráficas.

A noite terminou com o sempre muito aguardado desfile de Miguel Vieira, que regressou à passerelle depois da 5.ª participação consecutiva na Milano Moda Uomo em janeiro último, com o apoio do Portugal Fashion. Na nova coleção do criador, sugestivamente intitulada "Um inverno em África”, os tecidos grossos e estruturados dão lugar a materiais mais leves e frescos e os elementos geométricos lembram estampados étnicos. Bege bronze, laranja ocre, amarelo caril, azul celeste, castanho tabaco e azul-marinho são as cores eleitas por Miguel Vieira, enquanto nos materiais a preferência foi para a bombazina, o veludo (nomeadamente estampado), o pelo, as lantejoulas estampadas e os tecidos acolchoados. A silhueta desta coleção é justa mas informal, com jogos de volume. 

Ex-bloomers encerram o evento 

O 3.º dia de Portugal Fashion arranoua, pelas 14h00, com o elogio à elegância e sofisticação femininas sempre presente nos desfiles de Nuno Baltazar. Seguiu-se a marca de pronto-a-vestir Meam, que tem como diretor criativo o estilista Francisco Rosas, e logo depois Susana Bettencourt, com coleção "Stop the clock” – uma reflexão sobre "sociedade automatizada em que vivemos”, onde as malhas tricotadas de forma tradicional voltam a ter protagonismo. A criadora açoriana surpreendeu com um novo formato de apresentação, com o qual valorizou a mensagem e o processo criativo desta coleção. Susana Bettencourt contou com a colaboração do ilustrador Ricardo (@ricardoxparker) numa apresentação que incluiu, igualmente, uma exposição de artes plásticas. 

A diversidade do Portugal Fashion foi bem evidente no 3.º dia de desfiles. A meio da tarde teve lugar o desfile coletivo de sapatos e acessórios, seguindo-se a marca de vestuário Concreto – que nasceu em 1990 e é distribuída pelo grupo Valerius Têxteis – e a estilista Micaela Oliveira, cujo trabalho criativo se centra na moda nupcial e na alta-costura. 

A noite terminou em beleza com os decanos da moda portuguesa Manuel Alves e José Manuel Gonçalves, cujas criações parecem intemporais, e com o desfile de Luís Onofre, que foi recentemente nomeado presidente da Confederação Europeia do Calçado. Na passerelle brilharam os acessórios e os sapatos femininos e masculinos de um dos designers de calçado mais famosos do mundo, com clientes como Letizia Ortiz, Michelle Obama, Naomi Watts ou Paris Hilton. 

Na coleção de senhora de Luís Onofre, as botas e os botins estão em destaque, divididos entre texanas e above the knee. Os materiais são muito heterogéneos, desde o verniz ao efeito vinil brilhante e aos animal print, enquanto nas cores o mel, branco, cereja e cinza dão vida aos clássicos preto e castanho. Retomando a parceria com a Boca do Lobo, Luís Onofre volta a criar um salto metálico inspirado numa icónica mesa. Para homem, o designer propõe um conjunto de essenciais masculinos reinventados (Loafers, Oxfords e Monks Straps), produzidos em peles de qualidade e tendo o mel como tom de eleição. Trata-se de modelos bastante confortáveis, tal como as sapatilhas Luís Onofre de look mais urbano e contemporâneo. 

A manhã do último dia do 44.º Portugal Fashion, a partir das 10h30, foi reservada à moda infantil, segmento que, pela primeira vez, teve um calendário exclusivo no evento. Ao início da tarde, a marca Marques’Almeida apresentou a sua nova coleção, depois do sucesso alcançado em fevereiro na Semana da Moda de Paris, com o apoio do Portugal Fashion. A dupla Marta Marques e Paulo Almeida voltou a interpretar Portugal e o seu sentir profundo com as suas criações, sem deixar, no entanto, de refletir as suas referências punk britânicas. Numa coleção marcadamente de street wear, há gangas, vestidos longos, saias e sweat-shirts com silhuetas, formas, sobreposições e padrões inusitados.

Com atelier na capital inglesa, a marca portuguesa Marques’Almeida é comercializada em cerca de 100 pontos de venda e está presente em plataformas e-commerce de referência, como a Net-a-Porter, a Farfetch, a MatchesFashion ou a Selfridges. Ainda recentemente, a cantora Beyoncé partilhou uma fotografia no seu Instagram onde está vestida com um conjunto Marques'Almeida. Isto diz bem de como as criações da dupla formada no CITEX estão a conquistar o showbiz internacional e a causar frisson na alta-roda da moda. Para além da ex- Destiny's Child, também as cantoras Rihanna, FKA Twigs e Solange surgiram já em público com o look M'A girls da Marques'Almeida. 

Depois do êxito na Milano Moda Donna, com o apoio do Portugal Fashion, Alexandra Moura apresentou no Porto uma coleção que homenageia a arte de Rosa Ramalho, intitulada "Bestiário”. As criaturas fantásticas da ceramista influenciaram os detalhes, os desenhos, as misturas de materiais, as sobreposições, a paleta de cores e os dizeres da coleção. Os materiais presentes são o tule delicado, a flanela de algodão, a lã, a bombazine, o jersey metálico e o denim, estabelecendo-se assim uma ponte entre o clássico e o contemporâneo, entre o rural e o urbano. A paleta de cores também remete para as obras de Rosa Ramalho, sendo evidente a tonalidade do barro misturada com os tons escuros dos trajes rurais e a coloração habitualmente presente nas criaturas da ceramista. Preto, azul navy, amarelo, tons terra e azul seco compõem a paleta. 

O 44.º Portugal Fashion encerrou com os desfiles de dois ex-bloomers que estão a causar sensação na passerelle principal do evento. Referimo-nos aos jovens criadores Carla Pontes e David Catalán, que surpreenderam com as suas inventivas criações. Com a instalação viva "Remember where you come from”, Carla Pontes convidou o público a aproximar-se para melhor conhecer as linhas que constroem os volumes das peças. As volumetrias orgânicas e os detalhes subtis definem a estética da criadora, cujo desenho equilibra formas e materiais em peças com influências arquitetónicas e pormenores inesperados. O trabalho de Carla Pontes enquadra-se na slow fashion, movimento que valoriza as tradições locais e defende a sustentabilidade da indústria da moda.  

Já David Catalán apresentou a coleção "Still alive”, que combina peças clássicas com o sportswear para criar um guarda-roupa moderno, sofisticado e também aconchegante, como se exige para a estação fria. A coleção parte de uma palete térrea e neutra – bege, tijolo, preto e castanho – até avançar para tons mais contrastantes, como o azul-marinho, o laranja brilhante e o amarelo mel. Destacam-se as texturas antagónicas, sobrepostas e combinadas neste conjunto de propostas outono/inverno que têm a escalada como inspiração principal.

Resta dizer que o Portugal Fashion é um projeto da responsabilidade da ANJE – Associação Nacional de Jovens Empresários, desenvolvido em parceria com a ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal. O evento é financiado pelo Portugal 2020, no âmbito do Compete 2020 – Programa Operacional da Competitividade e Internacionalização, com fundos provenientes da União Europeia, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional.