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Miguel Vieira
Miguel Vieira

Escrever sobre Miguel Vieira não pode ser fácil. Um currículo vastíssimo, um sem número de conquistas, uma vida plena de histórias que merecem ser contadas e outras tantas que só à surdina devem ser ouvidas, e apenas alguns parágrafos pela frente para traçar o seu perfil. Numa tentativa de o fazer, salvaguardamos que tal como a Sagrada Família esta é uma obra inacabada.

Designer de moda desde 1986 – embora oficialmente em nome próprio só tenha principiado o seu percurso dois anos mais tarde – Miguel Vieira é um dos nomes incontornáveis no panorama da moda portuguesa. Fez da sua marca um verdadeiro império presente em vários segmentos da indústria, possibilitando hoje vestir homem, mulher ou criança dos pés à cabeça. Complementarmente à linha de vestuário para estes três segmentos, o criador desenha underwear, sapatos, joias, óculos, malas, peças de marroquinaria, e até móveis. Para breve está também a comercialização da primeira linha de sportswear.

Não deixa de ser curioso este percurso para um menino que inicialmente "nunca ligou à moda”, como revelou ao Destak, em maio de 2013, a propósito da comemoração dos seus 25 anos de carreira. Mas na verdade o bichinho estava lá, tal como o próprio reconhece, recordando que em criança um dos seus passatempos preferidos era desenhar, especialmente banda desenhada. Mas foi só após concluir o curso de Controlo de Qualidade e prosseguir a sua formação na área do Têxtil que despertou a paixão para o mundo dos tecidos.

Embaixador da moda portuguesa no mundo

Faz parte da primeira geração de criadores em Portugal (hoje o termo estilista está fora de moda), e mesmo entre os seus pares é reconhecido como um dos poucos designers nacionais que leva o nome do país aos quatro cantos do mundo. Natural de São João da Madeira, continua a marcar a agenda dos seus dias nesta cidade com forte tradição na indústria do calçado, sempre que outros compromissos profissionais e viagens assim o permitam. É aí que se localiza o seu atelier, bem próximo das fábricas com que habitualmente trabalha, algo que Miguel Vieira valoriza, pois prefere "arregaçar as mangas” inteirando-se assim de todo o processo de confeção e de distribuição, tal como partilhou recentemente com o programa What’s Up – Olhar a Moda (veja a entrevista realizada por Rúben Rua entre os 00:04:02 e os 00:10:34).

A partir da mais pequena cidade do país, apenas com 7km2, as coleções de Miguel Vieira principiam então viagem para outras paragens, muitas delas a milhares de milhas de distância. Na verdade, desde que deu os primeiros passos enquanto criador, Miguel Vieira procurou sempre a afirmação externa, pois os voos que ambicionava confrontavam-se com a realidade de um mercado interno exíguo. Reforçando e recordando o que já por mais do que uma vez disse, "quando faço uma coleção não a faço para Portugal, faço-a para o mundo”. Em 2013, em entrevista à agência Lusa, admitiu que a exportação já representava 80% do seu negócio.

Trabalho em todas as frentes

Mas nem tudo foi fácil. A consolidação e o reconhecimento da marca demoraram anos a chegar, embora o seu nome fosse em todos os quadrantes do país sobejamente conhecido (talvez o expoente máximo desse reconhecimento se tenha traduzido na atribuição da comenda da Ordem do Infante D. Henrique, em 2006, pelo então presidente da República, Cavaco Silva; e também nos dois Globos de Ouro que recebeu como melhor designer nacional, em 2007 e 2012). O percurso foi longo, Miguel Vieira investiu na presença da marca em múltiplas feiras internacionais, principalmente em Itália, Espanha e França, o que lhe possibilitou estabelecer contacto direto com agentes de compras de relevo.

As parcerias e colaborações com outras marcas e projetos foram naturalmente surgindo, o que também contribuiu para elevar a notoriedade da marca. A título meramente exemplificativo, em 1996 desenvolveu coleções de pronto-a-vestir para as francesas Montagute e Marie Claire. Dois anos mais tarde, deixou o seu cunho na linha de calçado da Guess. Em 2003, contribuiu com o seu traço criativo para o desfile internacional da Swarovsky. Em 2009, vestiu a Barbie no 50º aniversário da icónica boneca.

Paralelamente, a componente de imagem começou a ser trabalhada nos desfiles. Presença assídua na edição nacional do Portugal Fashion desde 1997 (apenas fez um interregno de 2008 a 2010), foi um dos primeiros designers a participar nas incursões internacionais do projeto de moda nacional, ao desfilar na São Paulo Fashion Week no ano 2000. Desde então, já pisou passerelles tão distintas como as de Istambul, Paris, Barcelona, Montevideu, Lodz, Madrid, Milão e Maputo. De assinalar ainda que em setembro de 2016, Miguel Vieira fez a sua estreia na New York Fashion Week, uma das incontornáveis semanas de moda do mundo, onde de resto regressará já no início do próximo ano, com o apoio do Portugal Fashion.

EUA, um caso sério de internacionalização

Ora será necessário destacar que o multifacetado designer encontra no mercado norte-americano forte aceitação da sua marca, sendo por isso uma aposta estratégica o reforço da sua imagem nos EUA. Na realidade, a linha Miguel Vieira Júnior é comercializada no país desde 2011, em diversas lojas multimarca, e é neste segmento que o seu nome tem ganhado mais projeção no território. Aliás, uma das crianças do clã Kardashian foi recentemente fotografada com uma t-shirt Miguel Vieira, o que de resto gerou elevado buzz mediático. (Recorde-se a propósito esta peça televisiva da TVI).

Linha sportswear em breve nas lojas

Uma nova constelação está prestes a nascer no universo Miguel Vieira. Trata-se de uma coleção desportiva desenvolvida em parceria com a Sport Zone powered by Portugal Fashion. A linha chega às lojas em fevereiro de 2017 e reúne coordenados para quatro desportos em específico: corrida, ténis, ciclismo e combate. Composta por peças diversificadas, desde calças, calções, tops, t-shirts, casacos, destacam-se ainda os acessórios para a modalidade de combate, tais como luvas, fitas e saco. 

"Sem sacrificar a moda em função do desporto, mas sim fazendo a sua fusão, foi possível criar uma coleção em que não há uma linha que separa a sofisticação estética da performance, acrescentando luxo e design à tradicional roupa de desporto”, sintetizou Miguel Vieira a propósito do lançamento da coleção, realizado durante o 39º Portugal Fashion, em outubro último. 

Preto no branco

Autoavalia-se como workaholic, metódico e organizado. Adora a profissão que escolheu, admite que a mesma corre a "velocidade de cruzeiro”, mas não a trocaria por nenhuma outra, pois defende que qualquer pessoa deve encontrar a felicidade naquilo que faz. Aliás, já recusou um convite para trabalhar na Prada, porque não queria ser funcionário da marca, mas sim concorrente dela.

Numa recente entrevista que deu à revista Caras, a propósito do desfile que realizou na Milano Moda Donna em março de 2016, foi destacada precisamente essa energia. Nas alturas em que viaja a trabalho, principalmente nas seasons de desfiles, a agenda apertada faz emergir o sentido prático de Miguel Vieira. "Na minha mala só há camisas brancas, pullovers e casacos azuis, meias pretas e calças azuis ou pretas. É o meu dress code para o dia e para a noite”, confidenciou.

Quiçá a sua imagem de marca, as cores preto e branco predominam em todas as suas coleções, embora se note que nos últimos desfiles a assinatura Miguel Vieira tem sido salpicada por cores mais vibrantes. 90% dos tecidos com que trabalha são de origem italiana, ao passo que 90% da produção é feita no país. Um equilíbrio na balança comercial da marca e um reflexo da gestão que pauta a sua empresa.

Para ele, a maior fonte de inspiração são as pessoas. Em conversa ao jornal televisivo da TVI24 disse que gosta de ficar sentado simplesmente a observar pessoas, a forma como se vestem e como se comportam.

No livro recentemente publicado pelo amigo e ex-manequim Rúben Rua, "Podes Ser Tudo”, disse "Eu quero ser… eterno”. (A verdade é que já o é).