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Não é uma questão de género, é uma questão de identidade
Não é uma questão de género, é uma questão de identidade
Saias nas coleções masculinas de Miguel Vieira. Homens e mulheres que usam as mesmas peças nas passerelles de Hugo Costa. Vestidos que assentam na perfeição a rapazes nos desfiles de Inês Torcato. O denominador comum nestas três frações é simples: a irrelevância do género. É uma das mais recentes tendências, que nos ensina que a identidade pode e deve sobrepor-se ao género e às consequências de se ser homem ou mulher. Como sempre, a moda não descura o papel importante que tem na nossa identidade e o conceito "gender neutral” tem ganhado força nas coleções de criadores e marcas de todo o mundo, incluindo em Portugal.

Há conceitos que têm vindo a ser desconstruídos nos últimos anos e o termo "género” é um deles. As secções de Homem e Senhora já não ditam o que cada um deve ou não deve vestir; a identidade de género ganhou fluidez e subjetividade, deixando cada vez mais ao critério de cada pessoa decidir aquilo com que mais se identifica. Mas a ideia de género é assim tão flexível? É. Isto porque o género consiste na expressão sociocultural de características ou atributos específicos associados ao sexo biológico, masculino ou feminino – no fundo, uma definição social que varia conforme o tempo e a cultura. A quebra de barreiras de género a nível político e social reflete-se, recentemente, de forma muito intensa na moda. A ideia de que as mulheres usam saias e os homens usam calças já está enterrada há muito; agora, são cada vez mais os criadores que concebem coleções unissexo, onde formas, cores, silhuetas e padrões podem ser usadas por literalmente qualquer pessoa, e são cada vez mais aqueles que as vestem despidos de preconceitos. Já muitos profissionais da moda desistiram das propostas para o menino e para a menina, agora substituídas por propostas para a pessoa.

Em outubro do ano passado, Emma Mcllroy, CEO da marca Wildfang, dizia ao jornal The Independent que "as roupas gender-neutral não forçam alguém a ficar dentro de uma caixa. Permite-lhes antes expressarem-se a si próprios exatamente como querem”. Uma ideia de livre expressão partilhada por outras marcas internacionais, como a H&M, a Zara ou até mesmo casas como Prada, Givenchy e Saint Laurent, que nas suas passerelles veem homens e mulheres desfilar com as mesmas coleções, as mesmas peças e a mesma atitude, com uma única mensagem: ausência de género. Neutralidade e fluidez são outras palavras que incorporam na perfeição este conceito que tem assolado não só semanas de moda internacionais, como o dia-a-dia de milhões de pessoas.

Também em Portugal assistimos ao crescimento da corrente no gender. Têm sido várias as edições do Portugal Fashion onde temos aplaudido desfiles desprovidos de rótulos femininos ou masculinos, seja verão ou inverno: Hugo Costa e Inês Torcato são exemplos de criadores que não fazem distinção de género nas suas coleções. 
O designer de S. João da Madeira, na passada temporada SS18, inspirou-se no povo nómada Moken trouxe-nos uma coleção com sabor a mar. Os tons de branco, preto, cinzento, verde água e amarelo assentavam na perfeição a homens e mulheres, que envergavam o mesmo tipo de camisas, calções, macacões e camisolas. "Tentamos mostrar a versatilidade de género da marca”, afirma Hugo Costa. "Em Paris apresentamos na semana de moda masculina e queremos ser capazes de vestir exatamente com a mesma peça, sem alterações, uma mulher e manter o ADN da marca”, complementa o criador.

Coleção SS18 de Hugo Costa

As cores não são o único elemento neutro nas propostas de Inês Torcato. A bloomer, que explora e desconstrói os clássicos sempre numa perspetiva de autorretrato, faz-se notar pelas silhuetas longas que delineia em camisas, vestidos, casacos e fatos. Também Miguel Vieira se dedicou a romper barreiras: no auge da celebração dos seus 30 anos de carreira, o designer incorpora na sua coleção FW18-19 saias que vestiram manequins masculinos na Milano Moda Uomo, onde também desfilaram mulheres, sob o signo do Rock & Roll; e mesmo o designer Pedro Pedro, que trabalha sobretudo o universo feminino, tem optado por definir silhuetas mais neutras e indefinidas, alargando as suas propostas também para o público masculino. "Estamos a caminhar para uma democratização de ideias e para uma permissão que tudo se misture”, conta o designer. "É cada vez mais importante não atribuir um rótulo fixo às coisas. É um brave new world”, acrescenta.

E esta tendência, faz o seu género?






Coleção FW18-19 de Miguel Vieira