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O futuro incerto da moda nas palavras dos criadores portugueses
O futuro incerto da moda nas palavras dos criadores portugueses

A importância da colaboração, a nova aposta no digital, oportunidades no mercado nacional e como apresentar as próximas coleções foram alguns dos temas abordados nas lives do Portugal Fashion Goes Home With ELLE. A rubrica no Instagram foi uma das primeiras estratégias digitais da plataforma de moda para continuar com o cumprimento da sua missão como alavanca para o trabalho desenvolvido pelos criadores de moda portugueses.

Através dos diretos no Instagram, os designers convidados puderam dar a conhecer as suas coleções, incluindo as que não foram apresentadas na última edição do evento, e puderam denunciar as principais dificuldades e preocupações causadas pelo impacto do vírus no setor e nas suas próprias marcas. Com ateliers parados, fornecimento de materiais limitado e encomendas adiadas ou canceladas, a produção da moda de autor enfrenta obstáculos que obrigarão à redefinição de estratégias de marca.

Com o cancelamento do Portugal Fashion, a maior parte das coleções não chegou a desfilar e outras encontraram um ambiente de desfile diferente do habitual. Ainda assim, segundo Maria Gambina, que marcou presença no evento, "estava uma energia espetacular” e descreveu a edição como "a melhor de todas”, por ter conseguido trabalhar melhor, com mais calma, união e proximidade. Na opinião de Susana Bettencourt, que também desfilou, "para o Portugal Fashion foi um bom exemplo de como contornar a situação em que estamos neste momento” e a adaptação ao digital "foi um formato que pode ser replicado por cada designer” para continuar o trabalho de promoção da marca.

De forma geral, todos os designers entrevistados em direto identificaram a importância da aposta na comunicação digital, dadas as restrições no contacto físico, e reconheceram ser ainda uma vertente pouca desenvolvida nas suas próprias marcas. Luís Onofre referiu a importância do e-commerce e a possibilidade de apresentar coleções numa plataforma digital. O designer acredita que "podemos estar numa nova era de comunicação muito importante para o nosso futuro e o nosso negócio”.

Com uma opinião semelhante, Susana Bettencourt destacou as inovações de algumas semanas da moda internacionais, como foi o caso da plataforma para compra imediata de peças após os desfiles em Xangai ou o desenvolvimento de showrooms virtuais com criações em desenho 3D. Segundo a criadora portuguesa, "a pandemia apressou-nos”, obrigou a "trabalhar mais rápido no online e mostrou-nos o que ele nos traz”.

Também em termos de adaptações, David Catalán planeia apresentar a próxima coleção num fashion film e destaca a vantagem do mesmo para mostrar pormenores dos looks criados, como algo que não era conseguido em desfile. Já Hugo Costa falou da importância do lançamento da sua loja virtual, como um processo que quer bem planeado e que priorize o "estímulo de venda”. O designer defendeu também que "hoje, o produto não chega” e que "ainda se está a acordar para a necessidade de criação de conteúdos de promoção diária”.

Vários designers destacaram as potencialidades das ferramentas onlineMaria Gambina contou que tem aproveitado para usar as redes sociais na divulgação dos seus processos de criação de peças, como forma de levar as pessoas a conhecerem e valorizarem mais a moda de autor. Rita Sá também acredita que as redes sociais têm um papel essencial na criação de um vínculo com o público.

Por outro lado, segundo Miguel Vieira "a moda de autor precisa de palmas”, "desfile com público” e todo o glamour inerente a um desfile é importante. Para o designer, "em situações de emergência pode-se adaptar, mas a moda não é isto”, referindo-se aos eventos à porta fechada ou digitais. No mesmo sentido, Katty Xiomara lembrou que as peças de autor são difíceis de vender online, pois "tem de haver uma experiência em loja” mais pessoal. Também Diogo Miranda referiu que "um lookbook não substitui a emoção de um desfile”, mas reconheceu que o que está a acontecer "traz mudanças necessárias”, pois "a forma como a indústria estava a trabalhar não era sustentável”.

Para além da reinvenção das marcas no digital, alguns designers identificaram certos problemas que continuam a prejudicar a moda portuguesa de autor. Luís Onofre e Katty Xiomara, por exemplo, referiram a necessidade de alterar a calendarização, não só para se adaptar ao ritmo imposto pela situação de isolamento, mas também para diminuir o tempo entre a apresentação de uma coleção e a sua venda ao público. Segundo Luís Onofre, "a emoção passa, deve ser logo aproveitada no momento” do desfile. Numa outra perspetiva, Katty Xiomara realçou a necessidade de haver mais colaboração entre designers, indústrias e marcas para se ultrapassar a crise no setor.

Em relação ao impacto do novo coronavírus no consumo, os designers acreditam que possa ser uma oportunidade e aumentar a procura de produtos portugueses, mais sustentáveis e de maior qualidade. Júlio Torcato acredita que se abriu "uma esperança e um caminho novo”, algo "mais próximo das pessoas, do que elas são e do que elas precisam”, ao admitir que "vamos pensar muito melhor no que queremos e no que precisamos”. Inês Torcato partilha a mesma opinião, acrescentando que se poderá vir a "procurar um bocadinho mais aquilo que é mais exclusivo”.

Nos diretos do Instagram foram ainda abordadas outras questões. Para além das coleções e universos criativos de cada designer, falou-se ainda, por exemplo, da possível forma de vestir pós covid-19 e do futuro das próprias criações. Num conjunto de incertezas sem resposta, Luís Buchinho acredita que "vão surgir coisas muito incríveis, dentro de muito em breve”. Uma esperança que é partilhada por todo o setor da Moda Nacional numa realidade sem paralelo.