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Portugal Fashion SS17
Portugal Fashion SS17

Foram 36 desfiles realizados em quatro edifícios emblemáticos e 25 mil as pessoas contabilizadas na assistência. Pela primeira vez na história do projeto, um dia exclusivo para a plataforma Bloom. Uma nova identidade gráfica foi revelada. E, fundamentalmente, uma edição de Portugal Fashion que coseu com precisão as linhas que ditam as tendências para a próxima estação estival.

Final de tarde de Outono abrilhantada com reflexos dourados e acompanhada por uma refrescante brisa do Tejo. Foi neste quadro vivo que aconteceu o primeiro dia do 39º Portugal Fashion no Pavilhão de Portugal, obra de referência da arquitetura mundial contemporânea, da autoria do renomado arquiteto portuense Álvaro Siza Vieira.

Coube uma vez mais a abertura do line-up à dupla Storytailors, que apresentou uma coleção inspirada num "contrabandista de criatividade”, dando assim continuidade ao enredo iniciado na temporada anterior. Em "Black Hills”, as propostas de Luís Sanchez e João Branco versam "padrões desenvolvidos a partir da textura de árvores endémicas do Alentejo”, materializados com cortes a lazer cirúrgicos, privilegiando a sobreposição de camadas e a abundância de texturas. Nos materiais imperou "a cortiça, o algodão, a gabardine, o cetim, o georgette e o tule”. Com a noite a entrar no horizonte, a segunda apresentação foi de Pedro Pedro. Recém-chegado da Milano Moda Donna, onde fez a sua estreia individual internacional, os coordenados do designer para a próxima estação quente destacaram silhuetas femininas e fluidas, de "ar descontraído”, um detalhe testemunhado nos acabamentos brutos e esfarrapados que, ainda assim, não comprometeram a elegância e a sofisticação das peças. Acrescente-se ainda que o imaginário desta coleção baseou-se na obra cinematográfica e no universo enigmático do realizador norte-americano David Lynch.

Já a marca HIBU., cuja autoria criativa pertence agora em exclusivo à jovem designer Marta Gonçalves, inaugurou os desfiles Bloom na capital. Um "ato isolado”, uma vez que nesta edição a plataforma que dá palco aos novos talentos da moda nacional conquistou um dia exclusivo no calendário, tendo todos os outros desfiles sido apresentados no Palácio dos CTT, no Porto. Justo pois será reservar também um artigo dedicado aos bloomers. Ainda no Pavilhão de Portugal, foi a vez de Alexandra Moura apresentar sua coleção que já havia sido revelada há poucas semanas atrás na London Fashion Week, num happening que teve lugar no prestigiado hotel The London Edition e que contou com a direção criativa da Wonderland Magazine. Em Portugal, o registo passerelle destacou os detalhes subtis e românticos das peças, que beberam inspiração da famosa peça de joalharia vitoriana Lover’s Eyes. Com uma roupagem inovadora e recorrendo a técnicas high-tech, na coleção intitulada "I’ve got my eyes on you” sobressaem "os tons claros do azul denim e as diferentes tonalidades de preto, bem como o verde-esmeralda, o lavanda e ainda um padrão jacquard com motivos florais”. A encerrar o primeiro dia do certame, as propostas da experiente dupla Alves/Gonçalves para a próxima season primaveril têm "a camisa como ponto de partida”, peça-chave que permite depois a evolução para um universo mais complexo, criando novos itens no vestuário feminino, onde predominam peças oversize, cortes retos e assimetrias. Rendas, redes, georgettes, chiffon, seda e algodão, revestidos com acabamentos técnicos, são os materiais em destaque. Nas cores, "o preto convive com padrões de inspiração botânica e geométrica”, ao passo que o rosa, o azul e o branco completam uma palete essencialmente metálica. Já o styling acentua-se "com cintos e fivelas de metal, botas de cano alto, numa vertente street”.

Portugal Fashion prossegue a norte

Viajemos agora diretamente para o Porto, tarde de sexta-feira, dia 14 de outubro. Após os desfiles do Bloom (que se concentraram no segundo dia e manhã da terceira jornada da edição), as apresentações prosseguiram no quartel-general do evento, a Alfândega do Porto. A primeira designer a pisar a passerelle da Sala de Arquivo foi Susana Bettencourt, num desfile repleto de cor e onde a sua mestria no knitwear ficou, uma vez mais, evidente. "Flashback” foi o tema escolhido para a uma coleção que se inspirou nas memórias da infância. Em evidência também no desfile a parceria que aliou a criadora açoriana com a prestigiada marca de calçado Birkenstock. Carla Pontes e Estelita Mendonça, dois jovens designers que iniciaram o seu percurso no espaço Bloom, tendo já nas últimas edições do Portugal Fashion transitado para a passerelle principal, foram os nomes que se seguiram num desfile conjunto. Em "Cloud”, a criadora volta a desafiar "a tridimensionalidade e o detalhe em peças de design depurado, versátil e urbano”, numa coleção onde predominam os tons suaves de azul e rosa. Já Estelita Mendonça inverteu a ordem da apresentação do desfile, começando pelos agradecimentos finais. As propostas primavera-verão 2017 do jovem criador que este ano foi distinguido na categoria Moda pelos Prémios Novos, da Fundação Calouste Gulbenkian, encerram uma forte mensagem social, uma vez que o leimotiv é a crise dos refugiados, um tema que Estelita já abordou no 38º Portugal Fashion.

A terceira tarde de Moda continuou com os coordenados frescos do decano Júlio Torcato. Na passerelle uma "fusão entre a estética minimalista e clássica”, entre os materiais nobres e o detalhe, a melhor tradição da alfaiataria portuguesa e a contemporaneidade. As propostas masculinas e femininas do designer portuense para o verão 2017 enquadram-se no lema "Not Only Ordinary People”, recuperando um conceito que Júlio Torcato tinha apresentado há dez anos com "Ordinary People”. Nas cores sobressai o "dark denim e bleach denim, as riscas clássicas e rendas, o forest green e o coral, bem como os marinhos, beges e brancos”. Seguiu-se outro nome incontornável na história do Portugal Fashion. Fala-se de Anabela Baldaque, que nesta edição despediu-se da "Vizinha” (tema da coleção outono-inverno 2016) para viajar até ao Japão. As influências nipónicas manifestam-se nos "tecidos finos, etéreos, sedas e mouselines, adamascados e algodões”, e ainda nos padrões florais em renda e nas cores aplicadas que variam entre uma palete pastel que inclui amarelo ocre, branco, preto, mar, rosas e cor pêssego.

No exterior da Alfândega do Porto o crepúsculo começava a tocar as águas do Douro. No seu interior, era a vez de Hugo Costa subir à passerelle, com uma coleção que havia sido (parcialmente) revelada na Semana de Moda Masculina de Paris SS17, onde se estreou em junho último. No Portugal Fashion, o criador de menswear são-joanense inovou com um desfile misto, à semelhança do formato que adotou na edição precedente do evento. O bushido – o rígido código de conduta associado à figura do samurai – é o tema central de uma coleção que adapta esta temática em formas e aplicações modernas e que, ao mesmo tempo, incorpora "volumes e texturas usadas nas artes marciais japonesas”. Aliás, a disciplina guerreira dos samurais, é facilmente percetível na "estética orgânica” adotada, nas riscas e nos blocos de cor empregues, que variam entre "o cinza (até ao prateado), o negro e o vermelho, em diferentes saturações”. A despedida da cultura oriental fez-se com a coleção SS17 de Diogo Miranda, numa viagem de regresso à Europa do início do século XX. O Cubismo - o primeiro movimento artístico avant-garde desse século – é a fonte de inspiração. Nos coordenados as cores nuas jogam com o cinzento e o castanho, contrastando "com tonalidades mais escuras, de que o preto é um icónico exemplo”. Nos materiais evidencia-se a seda, presente nos brocados e tecidos técnicos. No desfile de Diogo Miranda registou-se ainda o regresso à passerelle da manequim Luísa Beirão.

O penúltimo desfile do terceiro dia coube a Luís Onofre, que nesta coleção apostou num novo segmento: o calçado masculino. Inspirada na arte da Antiguidade Clássica, a coleção "Hellenic Garden” propõe para senhora "sandálias adornadas com tiras de forte expressividade gráfica”, que têm na camurça e no cetim os materiais de eleição, recebendo também como apontamentos os "cordões de algodão colorido, franjas e lantejoulas”. Naquela que é grande novidade da sua coleção, a linha masculina, o designer reinventa os clássicos para os homens que optam por uma imagem contemporânea e sofisticada. Os ténis são de sola elevada e os modelos Oxford recebem atacadores em pele ou camurça.

A fechar os desfiles de sexta-feira, Miguel Vieira voltou a apresentar a coleção "África Minha”, desta feita para o público português. Recorde-se que o designer estreou-se na New York Fashion Week com o apoio do Portugal Fashion e foi na passerelle nova-iorquina que a "mulher de porte colonial e sofisticado que se apaixona por África, suas gentes e seus costumes” foi pela primeira vez revelada. Como seria expectável, na coleção sobressaem os padrões tribais, "com o seu tom ouro que lembra o pôr-do-sol”, e os padrões naturais, "quase como um camuflado animal”. O design é moderno e de linhas direitas, quase austero, mas "reforçado por elementos de inspiração neoclássica, que suavizam a silhueta dando-lhe um toque mais feminino e uma elegância por vezes quase romântica”. No dia seguinte Miguel Vieira regressou ao certame mas num outro registo, para apresentar a coleção desportiva que desenvolveu em parceria com a Sport Zone e que contou com o apoio do Portugal Fashion.

O último dia da 39ª edição do evento trouxe uma nova location, o recém-inaugurado Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, uma obra arquitetónica que fez a simbiose perfeita com os dois desfiles aí apresentados. Num sábado que amanheceu de chuva, na hora de Luís Buchinho revelar ao público nacional o que preparou para o próximo verão, já o sol – condizente com a coleção que entretanto tomava conta do último piso do edifício – brilhava. O look sport sexy imperou, assim como linhas gráficas vincadas, trabalhadas em silhuetas anatómicas. O universo imagético completou-se com uma linguagem estética que recolheu inspiração nos grafismos de máquinas industriais e seus componentes. Recorde-se também que a coleção de Buchinho foi recentemente apresentada na Semana de Moda de Paris Prêt-à-Porter SS17, no âmbito do roteiro internacional do Portugal Fashion. A manhã marítima encerrou com o apropriado desfile de Katty Xiomara, cuja coleção bebe precisamente inspirações náuticas, quer seja pelos "jérseis esponjosos”, "os mega padrões feitos em bases aguareladas”, as rendas que "reinterpretam as redes de pesca”, ou o lurex que "reflete o brilho das águas e das areias”. Em "Corrente das Agulhas" os Descobrimentos são o tema central, tendo sido precisamente no anfiteatro exterior do Terminal de Cruzeiros – numa paisagem digna de postal – que as manequins desfilaram. Mas já no início de setembro a coleção tinha sido revelada do outro lado do Atlântico, na New York Fashion Week.

Na tarde final da edição que precede os festejos das 40 temporadas de Portugal Fashion, deixámos o cenário marítimo para o regresso ao ambiente fluvial do Douro. Na Alfândega do Porto os desfiles da tarde foram sobretudo dedicados à indústria, aliando assim a criatividade lusa à força produtiva das marcas nacionais, algo que o certame continua a valorizar e a privilegiar. O calçado marcou o primeiro desfile da tarde, com as marcas Ambitious, Dkode, Fly London, JJ Heitor, J. Reinaldo e Nobrand a abrirem caminho para a apresentação da marca Pé de Chumbo, que pela segunda vez consecutiva se apresentou na edição nacional do Portugal Fashion, e após a participação em julho último na Altaroma, com o apoio do projeto de moda nacional. Sob a direção criativa da designer Alexandra Oliveira, a coleção destaca texturas, através de "uma mistura de fios de seda e viscose de espessuras diferentes em xadrez de cores ou liso”, e de construções idênticas em linho. Os tons de bege, preto e beringela são as cores predominantes.

A marca menswear Vicri, cuja direção criativa está a cargo de Jorge Ferreira, voltou a surpreender esta temporada. Desde o espetáculo na passerelle que fez lembrar o verdadeiro espírito da cultura cubana, com as cores, conjugações e atitudes condizentes com esse way of life, até aos padrões aplicados nos coordenados, que variaram entre o xadrez e as riscas. Elsa Barreto, pela terceira vez a participar no Portugal Fashion, regressou com "Happiness”, revelando à assistência um lado mais "urbano, descomprometido e sofisticado”, onde a jovialidade foi rainha. Organzas, tecidos fluidos, folhos, conferem às peças para a primavera-verão 2017 um look romântico, divertido, leve e ultra-sensorial. Na continuidade de um mais registo sensual, outro nome sobejamente conhecido. Fátima Lopes deu a conhecer uma coleção "aquática, sofisticada e ultra feminina”, que inclui também calçado da sua autoria. As silhuetas são inspiradas pelo mar e os seus múltiplos estados de alma, "os seus reflexos cintilantes e os seus dégradés de azuis, as suas formas ondulantes e as suas inexoráveis comunhões de cores crepusculares”.

No único desfile realizado na Sala Poente, a marca Ana Sousa apresentou-se com a delicadeza dos tons suaves e doces. Materiais leves e esvoaçantes, rendas e tecidos transparentes são elementos-chave que remetem para "a elegância luxuosa de locais como Cannes ou Santorini”, por onde a menina-mulher – figura central desta coleção – se passeia.

Regressando à Sala do Arquivo e desfilando ao som de música ao vivo, as propostas da Dielmar também foram "buscar inspiração à cultura rica e vibrante de Cuba”. Os fatos são slim fit em lã e seda com look moderno e minimalista. Nos casacos, destaque para o xadrez de janela, com apontamentos de cor, e para as espinhas finas, que se interligam com tecidos de aspeto natural, falsos lisos e lavados.

O penúltimo desfile da noite coube a Carlos Gil que, após o regresso da Milano Moda Donna com o Portugal Fashion, fez nova apresentação da coleção "Cultural Vibes”, que conjuga "elementos clássicos e tradicionais, volumes, exuberância de cores, estampas e significados” de diferentes culturas e recolhe inspirações em vários continentes. Observam-se assim "misturas inusitadas, jogos de pensamentos, conceitos e emoções, cores e materiais”, que se materializam "em peças femininas e audazes”.

Estendeu-se um tapete de relva e recriou-se o ambiente dos courts de ténis no encerramento da edição do Portugal Fashion SS17. No registo que lhe é particular, o desfile da Lion of Porches reuniu propostas para pequenos e graúdos, inspiradas nos looks desportivos do golfe e do ténis. Nas cores, o azul-marinho, o preto, o vermelho e o branco predominaram, ao passo que nos acessórios notaram-se as raquetes, as fitas na cabeça e nos punhos, e os sport bags.

No final, um line-up que voltou a juntar criadores consagrados e jovens talentos, que aliou o conceito de criatividade à realidade do negócio, e que uniu vários críticos nacionais e internacionais em torno de um único statement: Portugal está na moda e a moda portuguesa está no Mundo!