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Uma nova era na catwalk?
Uma nova era na catwalk?

Há quem diga que a indústria da moda atingiu o breakingpoint. A reavaliação dos formatos de apresentação dos desfiles anunciada pelas grandes casas de alta-costura e algumas decisões de rutura entretanto tornadas públicas fazem crer que assistimos ao despontar de um novo paradigma no setor. 

Num tempo em que a novidade assume novas roupagens a um ritmo vertiginoso, numa altura em que as diferentes direções criativas de marcas de topo disputam entre si campanhas disruptivas, no advento do digital, em suma, numa indústria desde sempre associada ao fast-forward, chegou a altura de pressionar o botão pause.

É essa a conclusão a que chegam os designers que, sentindo a necessidade de lançar o debate no espaço público sobre o futuro da indústria, começam a implementar novas abordagens aquando a apresentação das suas coleções. O primeiro sinal foi dado em 2014 por Miuucia Prada que arriscou fazer um desfile misto na semana de moda de Milão, introduzindo uma coleção de homem numa passerelle que, à partida, seria só para mulher. Uma visionária que garantiu que outros pares lhe seguiriam os passos. Não se enganou.

Passado um ano, no verão de 2015, outra novidade, desta feita protagonizada por marcas como a Saint Laurent , Burberry, Givenchy e Gucci. Foi a vez de introduzir manequins femininos nas passerelles das semanas de moda masculinas, facto que o site Business of Fashion registou. Uma experiência-piloto que vingou e que, entretanto, conduziu a novas decisões ainda mais audazes. Tom Ford, por exemplo, anunciou que a sua coleção outono-inverno seria apresentada no mês de setembro, ao passo que a Burberry comunicou que em 2017 só apresentará dois desfiles, um por cada temporada, opção estratégica seguida pela Gucci.

Vantagens de um desfile unisexo

Embora não haja consenso sobre o assunto, muitos especialistas e, desde logo, os designers preconizadores da ideia consideram que desfiles mistos possibilitam uma convocatória alargada à imprensa, congregando editores de revistas de moda masculinas e femininas num único evento, conduzindo assim a uma reafectação de custos considerável e a oportunidades de comunicação mais impactantes.

Mais do que isso, pretende-se extinguir o hiato de tempo, normalmente de seis meses, que dista entre a apresentação da coleção e sua comercialização. A intenção é, de acordo com Christopher Bailey, diretor criativo da Burberry, que a coleção fique disponível para compra online logo após a sua apresentação. De acordo com a diretora de vendas da cadeia de prêt-à-porter norte-americana Brown’s (recentemente adquirida pela unicórnio portuguesa Farfetch), Laura Larbalestier, em declarações à Vogue, "nota-se uma performance positiva significativa nas vendas quando uma marca comercializa as peças logo após a apresentação do desfile”.

Por outro lado, vozes há que levantam dúvidas quanto à lógica buy-now-wear-now. Isto porque de acordo com esta metodologia, as marcas serão obrigadas a produzir com celeridade peças que, não raras vezes, são manufaturadas, correndo assim o risco de comprometer a qualidade, facto a que chama atenção Susanne Tide-Frater, diretora de Estratégia da Farfetch.

Uma discussão que certamente lançará novos capítulos nos próximos tempos, o que não invalida que estejamos já a vivenciar uma mudança de paradigma nas passerelles de todo o mundo. Por cá Nuno Baltazar fê-lo pela primeira vez no desfile FW16 do Portugal Fashion, certame que tem recebido, nas últimas edições, os desfiles mistos de Miguel Vieira, Storytailors, bem como das marcas de pronto-a-vestir Lion of Porches, Cheyenne ou Mad Dragon Seeker. De assinalar ainda a introdução de coordenados femininos nos desfiles de Júlio Torcato, que criava exclusivamente para homem. Algo que conflui com a linha de pensamento da carismática editora da vogue norte-americana, Anna Wintour, que defende a urgência de um reajuste na fashion industry: "O calendário da moda tem-se mantido inalterado ao longo dos anos, ao contrário do resto do mundo. Temos nós também que acompanhar essa mudança”.